Teresa de Saldanha, o lema e a prática: fazer o Bem, sempre.

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I14Passaram, no dia 8 deste mês de Janeiro, 100 anos que Madre Teresa de Saldanha partiu da vida terrena onde deixou uma obra, já na época, de grande alcance.  Tivemos o privilégio de acompanhar este fim de semana a extraordinária comemoração em sua homenagem organizada pelas irmãs Dominicanas em Fátima, com uma missa celebrada pelo Senhor Cardeal D. Manuel Clemente na Basílica da Santíssima Trindade, um almoço na Casa das Irmâs Dominicanas e um evento no Centro Pastoral Paulo VI onde, além de vários membros da família Saldanha descendentes do seu irmão e sobrinhos, estiveram alunos da escola de S. José de Benfica e respectivas famílias, assim como representantes de diversas casas da congregação de varios pontos do país, participando igualmente através de gravações em filme, todos os centros espalhados pelo mundo desde Albânia, Angola, Moçambique, Timor, Estados Unidos, Brasil, Paraguai: deveras impressionante! À data da sua morte corria já a fama de santidade de Madre Teresa e até então fundara  27 casas sendo 17 em Portugal, 6 no Brasil, 1 na Bélgica, 2 nos E.U.A. e 1 em Espanha. O seu lema e pratica que tem inspirado tantos, chega ao coração de muitos pelo mundo: fazer o bem, sempre

Actualmente decorre o Processo de Canonização de Madre Teresa de Saldanha: aberto em Portugal a 6 de Novembro de 1999 encerrou a 17 de Novembro de 2001 e foi posteriormente entregue em Roma a 14 de Fevereiro de 2002.

A sua vida foi marcante pela obra que deixou e hoje, passado tanto tempo já, os frutos da sua fé, entrega e perseverança continuam a chegar a tantas pessoas. Numa época em que não era nada comum uma senhora tomar as rédeas de qualquer iniciativa que fosse e nem sequer seria bem vista ao fazê-lo, num tempo em que a própria igreja estava enfraquecida, Teresa de Saldanha foi a primeira mulher fundadora de uma congregação religiosa em Portugal após o regime liberal ter decretado a extinção das ordens religiosas em 1834.

De personalidade forte, determinada, organizada, uma notável capacidade de liderança e de trabalho, culta e piedosa, imprimiu os seus valores em todas as acções que realizou ao longo da vida, movida pela sua grande paixão a Deus e dedicação aos mais desprotegidos tendo-se tornado numa grande figura feminina que se adiantou ao seu tempo.

Proveniente de uma família nobre, Teresa nasceu no dia 4 de Setembro de 1837 no Palácio da Anunciada, na Rua das Portas de Santo Antão em Lisboa. Filha de João Maria do Sacramento de Saldanha Oliveira Juzarte Figueira e Sousa e de Isabel Maria de Sousa Botelho, terceiros condes de Rio Maior, foi baptizada no dia seguinte ao seu nascimento na Capela do Palácio da Anunciada e, em 1848, fez a Primeira Comunhão no altar de Nossa Senhora da Conceição, na Igreja dos Inglesinhos, em Lisboa.

De estado de saúde débil e preocupante Teresa foi acompanhada desde cedo com a permanente presença e dedicação da mãe que teve um papel preponderante na sua orientação ensinando-lhe letras (português, história, francês, inglês e alemão), os princípios da música e da arte colaborando com professores particulares escolhidos por si e  iniciando-a na prática da misericórdia através da Associação de Nossa Srª Consoladora dos Aflitos que fundou em 1849 dedicada ao socorro das famílias que viviam na pobreza.

Em 1855, com dezoito anos, ao pintar o Ecce Homo, Teresa sentiu o primeiro apelo místico e fez voto de castidade e um ano mais tarde redigiu um escrito onde declarou claramente a sua opção de exclusividade a Deus e ao serviço dos pobres.

Dirigiu o Colégio de Stª Marta para Meninas Pobres, apoiado pelas Filhas da Caridade de S. Vicente de Paulo uma comunidade de freiras francesas que se encontravam em Portugal exercendo a sua missão de atender aos pobres e desprotegidos. Em 1859 fundou em Lisboa com algumas amigas e dirigiu durante toda a sua vida a Associação Protectora das Meninas Pobres com Estatutos aprovados pela Santa Sé, a 21 de Abril de 1863, que veio a estar na origem da fundação, daquela que teve depois grande alcance pelo mundo, a Congregação Portuguesa das irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena em 1868.

Dedicou-se assim à educação de crianças pobres, à alfabetização e promoção de raparigas operárias através de aulas externas trabalhando  em grande medida com as irmãs da caridade francesas que, subitamente em 1862, foram expulsas de Portugal, deixando Teresa inconformada com a situação que abria uma grande lacuna assistencial. Teresa já tinha manifestado à sua mãe o desejo de ser religiosa e à sua cunhada, a Marquesa de Rio Maior, a intenção de ingressar nas Irmãs da Ordem Terceira de S. Domingos, em Stone/Inglaterra onde já tinha sido aceite contudo, o pai opusera-se completamente à sua saída para o estrangeiro; ao mesmo tempo ela própria via a necessidade do seu país e o chamamento de Deus em fundar uma congregação que se dedicasse ao serviço dos mais pobres e desfavorecidos da sociedade.

“Cheia de desejos de me consagrar ao serviço de Deus, vendo grandes dificuldades em obter dos meus pais licença para deixar para sempre Portugal; vendo também a necessidade de estabelecer em Portugal uma ordem religiosa ativa, que se ocupasse de pôr em prática todas as obras de misericórdia, comecei a pensar profundamente no ano de 1864, tinha eu 27 anos de idade, como seria possível pôr em prática os meus ardentes desejos, seguindo em tudo e por tudo a Vontade de Deus… Mas Deus que me inspirava estes desejos e que sabia bem o meio de os pôr em prática, olhava sem dúvida para mim com ternura, do alto da Sua grandeza, servindo-se das minhas dúvidas e vendo ser fácil o que a mim me parecia impossível! 

(Notas particulares da M. Teresa de Saldanha)

68040_372960279448757_627999955_nSó em 1887 conseguiu realizar o seu sonho quando tomou o Hábito e iniciou o Noviciado a 18 de Abril com o nome de Irmã Teresa Catarina Rosa Maria do Santíssimo Sacramento. Fez a Profissão Religiosa a 2 de Outubro e foi nomeada a primeira Superiora Geral da congregação a 9 de Novembro, com licença especial de Breve de 21 de Dezembro de 1887 emitida pelo Papa Leão XIII. Estes acontecimentos culminaram com a tomada de posse do cargo de Superiora Geral no dia 15 de Janeiro de 1888 e, mais tarde, em 2 de Outubro de 1892, com a Profissão Perpétua.

Teresa de Saldanha distinguiu-se também na pintura onde aprendeu com os mestres Mr. Leberthais (carvão) e Tomás José da Anunciação (aguarela e óleo), revelando grande talento para pintar paisagens, retrato ou motivos profanos e uma preferência pela iconografia religiosa. Deixou obras de grande qualidade pictórica que foram estudadas por alguns especialistas, como António Quadros numa conferência proferida em 1988, nos 150 anos do seu nascimento, na Fundação Calouste Gulbenkian, intitulada Romantismo e Misticismo na Pintura de Teresa de Saldanha. Destacam-se nas suas obras: dois auto-retrato e vários retratos de família (primeiros carvões, 1851), Ecce Homo (1855-1856), carvões, aguarelas e óleos (1856), Painel do Sagrado Coração de Jesus e S. João Baptista (Goa, 1865), Santa Brígida (Convento das Inglesinhas, 1865), Nossa Senhora e o Menino Jesus (Hospital de S. Luís das Irmãs da Caridade Francesas, 1865), Painel em honra da Beata Maria dos Anjos (1865), as últimas produções pictóricas (1869), a Mater Dolorosa e Santa Rosa de Viterbo.

Deixou também um grande espólio literário de escritos pessoais e de circunstância, nomeadamente notas autobiográficas e das suas memórias, orações, cartas, relatórios e contas. Morreu com fama de santidade numa pequena casa alugada na Rua Gomes Freire, n.º 147, em Lisboa, no dia 8 de Janeiro de 1916 com setenta e oito anos, completamente despojada dos seus bens que lhe tinham sido retirados com a implantação da República. As exéquias foram realizadas na Igreja do Corpo Santo, em Lisboa e o seu corpo foi sepultado no jazigo da congregação no Cemitério de Benfica, na mesma cidade, onde hoje repousa.

A sua memória, que continua viva nos corações tocados pela sua bondade e perseverança, serviu ao longo dos anos de inspiração à realização de diversas comemorações relacionadas com a sua vida e obra e com a congregação que fundou, através da publicação de livros, biografias e artigos, fotografias, conferências, exposições, peregrinações, programas de rádio e televisão, dramatizações.

Fazer o bem, sempre. O bem estar passa por aqui